2º Festival de Corais de Belo Horizonte
Homenagem ao Clube a Esquina


Evento vai reunir corais de várias partes do país
com apresentações gratuitas em pontos turísticos da capital mineira


O Clube da Esquina ganha, entre os dias 25 e 27 de novembro, uma homenagem a altura. Trata-se do 2º Festival de Corais de Belo Horizonte, que este ano se rende ao fenômeno musical que projetou Minas Gerais para o mundo. Corais de várias partes do país vão se apresentar gratuitamente em pontos turísticos de Belo Horizonte com a participação especial dos grupos Equale, Maracatu Lua Nova, Encaixa Couro e de alguns os integrantes do movimento, entre outros.

Paralelamente às apresentações, o Festival pretende oferecer oficinas e palestras para os corais participantes e público presente. Segundo o maestro Lindomar Gomes, coordenador do Festival, o objetivo é, comcomitantemente à homenagem, resgatar o valor do canto coral. "As músicas do Clube da Esquina se identificam muito com o canto coral, que erroneamente ainda nos dias atuais é associado à rigidez do canto europeu e gregoriano. Queremos mostrar que o canto coral está mais próximo da música popular brasileira de qualidade", afirma o maestro. "Além disso, percebemos nas canções do Clube da Esquina a preocupação com o arranjo vocal, o que compactua com o estilo coral", completa Lindomar.

Em sua primeira edição, em 2003, o Festival prestou homenagem ao centenário de Ary Barroso, um dos baluartes da nossa MPB. Para esta edição, aprovada nas leis municipal e federal de incentivo a cultura, a expectativa é de um público de mais de 10 mil pessoas, nos três dias de evento.

Inscrições

Para os corais que ainda quiserem se inscrever gratuitamente, a organização do Festival disponibilizou o regulamento e a ficha de inscrição no site www.festivaldecorais.com.br, até o dia 30 de outubro. O 2º Festival de Corais de Belo Horizonte é uma realização da Maestria Produções Artísticas, com patrocínio da Universidade Fumec e apoio das leis municipal e federal de incentivo a cultura, da Phocus 4, Belotur, Rede Minas, Rádio Inconfidência e Museu Clube da Esquina. Mais informações pelo telefone (31) 3425-5625.

 

 


O Clube da esquina

O sobrado onde fica o bar abrigou, em 1902, a primeira cervejaria de Minas Gerais, a Cervejaria Rhenânia. O local é bastante agradável, ambiente claro, amplo. A decoração é simples, sem ornamentações, mas muito bonita.

Endereço: Rua Sergipe, 146 Bairro:Funcionários Telefone: (31) 3241-6174

O Clube da Esquina é um movimento musical tipicamente mineiro. Em outras palavras, é a música que representa o espírito das Minas Gerais. Enquanto que a Bahia nos presenteou, nos anos 1960, com o Tropicalismo, outro importante movimento, Minas Gerais, nos 1970, também nos surpreende com essa maravilhosa música. A música do Clube da Esquina é revolucionária, regionalista, bem elaborada e sofisticada. Na obra de Beto Guedes notam-se características rurais e na produção de Lô Borges há a influência do barroco mineiro.
Um grupo que merece ser citado, apesar de não ser mineiro e muito menos pertencer ao movimento aqui em questão, é a dupla de rock rural Sá (carioca) e Guarabyra (baiano), que já foi, antes da saída de Zé Rodrix (carioca), um trio: Sá, Rodrix e Guarabyra. O anteriormente trio e depois dupla, estabeleceu as bases para o rock rural, ecológico, que influenciaria as carreiras de gente como Beto Guedes e Lô Borges. O surgimento do rock rural foi um reflexo evidente da consciência ecológica no Brasil. Em termos ideológicos, o gênero pregava a busca de uma vida mais equilibrada e feliz. "A gente saiu na frente levantando uma bandeira que o pessoal tinha na cabeça, mas ainda não expressava: era o homem, o questionamento do progresso, a estrada, a natureza, a busca do equilíbrio", dizia Gutemberg Guarabyra. Veja que ele citou a natureza, a ecologia e a busca por uma vida mais equilibrada, temas presentes não apenas no rock rural, mas também no Clube da Esquina e no Rock Progressivo.
Caetano Veloso diz que, com o seu exílio e o de Gilberto Gil, o Tropicalismo perdeu vez e voz, uma vez que ambos eram os seus mentores, os seus cérebros, e que, com isso, a tropicália não teve chance nem tempo de se estruturar e se organizar de forma que pudesse constituir uma "escola" ou um "movimento" mais sólido, no sentido mais pleno da palavra, o que ocorreu com a Bossa Nova e com o Clube da Esquina. De qualquer maneira, os tropicalistas inovaram em sua maneira de fazer e compor música e de escrever e fazer poesia e/ou letras, e essas influências foram absorvidas por quem veio depois, de uma forma ou de outra. De acordo com fontes, a influência do Tropicalismo é explícita em músicos dos anos 90 (ou que surgiram nessa época), como Lenine, Chico César, Otto, Chico Science e Nação Zumbi, Zeca Baleiro e Carlinhos Brown. Os frutos do Tropicalismo teriam sido colhidos exatamente com o trabalho desses novos nomes.
Voltando ao Clube, Caetano também comenta que, ao se silenciar prematuramente o Tropicalismo, que até então se opunha às estruturas vigentes no Brasil, o Clube da Esquina é que passaria a protestar contra a situação do país na época, contra a ditadura.
Fora as harmonias vocais e a sofisticação na forma, características do Clube, outro fato relevante é a facilidade que esses músicos tinham em se reunir para tocarem juntos. Compunham juntos, um tocava no disco do outro, retribuíam a participação, e assim ia... Por tudo isso, ao mesmo tempo que era um movimento, o Clube da Esquina era também um grupo (ou grupão), uma vez que quase todas essas feras se apresentavam juntas (tocavam e compunham juntos).
Infelizmente eles não tocam mais juntos. Mesmo assim, os fãs do Clube da Esquina ainda cobram que voltem a se reunir.
O Clube da Esquina, desde que surgiu, também vem influenciando muita gente. Guilherme Arantes declarou que já compôs muito utilizando as mesmas harmonias usadas por Lô Borges e Beto Guedes.

Tudo começou em 1963, em Belo Horizonte. O cantor, compositor e instrumentista Milton Nascimento tinha acabado de chegar de Três Pontas, onde tocava na banda W’s Boys com o pianista Wagner Tiso, e foi morar numa pensão no Edifício Levy, na cinzenta Avenida Amazonas, no centro da cidade. Lá, em outro apartamento, viviam os irmãos Borges – doze ao todo. No começo, Milton se enturmou com mais velho deles, Marilton, com quem foi tocar no grupo Evolussamba. Logo, estaria fazendo amizade também com Márcio e com o pequeno Lô, de apenas dez anos de idade, que desceu certa vez as escadas do prédio para ver de quem era aquela voz e aquele violão que o encantavam. 


Fernando Brant Os encontros entre Milton e os dois irmãos eram sempre no quarto dos Borges, em noites regadas a batida de limão. Márcio tornou-se o letrista das primeiras composições de Milton, Novena, Gira Girou e Crença, feitos em 1964. Enquanto isso, Lô estudava harmonia com o guitarrista Toninho Horta e devorava discos dos Beatles com outro menino, Beto Guedes, filho do seresteiro Godofredo Guedes, que tinha vindo de Montes Claros. Juntos, os dois meninos que haviam se conhecido por causa de um patinete, montaram a banda The Beavers, inspirada no quarteto inglês. Assim surgia o embrião do Clube da Esquina. A troca de idéias avançou pelas noites no bar Saloom e nas sessões no Cineclube SEC. 

Enquanto isso, Milton Nascimento, o grande aglutinador dessa cena continuava cantando na noite e compondo. Em 1966, tirou o quarto lugar no Festival Nacional de Música Popular da TV Excelsior de São Paulo cantando Cidade Vazia, de Baden Powell e Lula Freire. No mesmo ano, Elis Regina gravou uma música de Milton, Canção do Sal. Em 1967, inscritas à sua revelia pelo cantor Agostinho dos Santos, três músicas suas acabaram vingando no II Festival Internacional da Canção: Travessia (primeira parceria com Fernando Brant) em segundo lugar, Morro Velho em sétimo e Maria, Minha Fé, que ficou entre as 15 finalistas. Era o começo do estrelato para Milton Nascimento, que logo foi apresentado aos americanos com o disco Courage (1968), gravado por lá com arranjos de Eumir Deodato. Enquanto isso, a turma de músicos mineiros reunida por Milton e os Borges não parava de crescer, com a chegada de Flávio Venturini, Vermelho e Tavinho Moura, que apresentou muitas das canções folclóricas mineiras que Milton gravaria em Gerais. Eles se apresentavam em shows chamados Fio da Navalha com Lô Borges, Beto Guedes e Toninho Horta. 




Música, política e álcool 

Faltava apenas batizar essa reunião de músicos. Um dia, na esquina da Rua Divinópolis com a Rua Paraisópolis, no bucólico bairro de Santa Teresa, Milton e os irmãos Borges fundaram o Clube da Esquina, irmandade unida no interesse por música, política, amizade e uma " cachacinha" das boas. O nome foi idéia de Márcio que, sempre ao ouvir a mãe, Dona Maria, perguntar por onde andavam os meninos Borges, dizia: "Claro que lá na esquina, cantando e tocando violão". Em comum entre os integrantes, a origem de classe média, o grande interesse por assuntos culturais e políticos e a disposição de privilegiar os temas sociais em detrimento do amor nas letras. 

Antes mesmo que se formalizasse um movimento (que, de acordo com seus integrantes, nunca se formalizou), Milton e Lô Borges (então com 17 anos de idade) entraram em 1972 nos estúdios da EMI para gravar o primeiro Clube da Esquina. Com uma capa que trazia apenas a foto de dois meninos, um preto e uma branco, na beira de uma estrada em Nova Friburgo, o LP apresentou ao país a alquimia sonora gestada por aquele grupo de mineiros, ao qual se agregaram ainda o letrista Ronaldo Bastos e o grupo Som Imaginário (de Wagner Tiso): bossa nova, Beatles, toadas, congadas, choro, jazz, folias de reis e rock progressivo, tudo reunido numa música original, de apelo universal e grande força poética. 

Canções como O Trem Azul (de Lô e Ronaldo, regravada por ninguém menos que Tom Jobim em seu último disco, Antônio Brasileiro), Tudo o que Você Poderia Ser (Lô e Márcio), Nada Será Como Antes e Cais (ambas de Milton e Ronaldo) foram o marco zero para aquele que foi o primeiro movimento musical brasileiro de importância depois da Tropicália – embora haja quem diga, respaldado pela admiração dos jazzistas americanos por Milton, que foi um movimento musicalmente mais importante que a Tropicália. Logo, cada um dos sócios do Clube estaria seguindo o seu caminho, lançando seus próprios discos – Beto Guedes rachou um LP com Novelli, Danilo Caymmi e Toninho Horta e em seguida fez A Página do Relâmpago Elétrico e Amor de Índio. Lô Borges gravou os elogiados Lô Borges e Via Láctea. Flávio Venturini foi para O Terço, banda que lançou discos mais voltados para o rock progressivo e depois daria origem ao pop 14 Bis (de Vermelho e Magrão). 

  


Novos integrantes

Wagner Tiso, por sua vez, partiu para a carreira solo instrumental e Tavito (que era do Som Imaginário) lançou-se como cantor e compositor (e teve os sucessos Casa no Campo, parceria com Zé Rodrix, e Rua Ramalhete). Em 1978, Milton Nascimento lançou o disco duplo Clube da Esquina 2, reunindo a sua velha turma e alguns novos integrantes. Entraram canções como Nascente (Flávio Venturini e Murilo Antunes), Maria, Maria (Milton e Fernando Brant), Tanto (Beto Guedes e Ronaldo Bastos), Pão e Água (Lô Borges, Márcio Borges e Roger Motta), Olho d´Água (Paulo Jobim e Ronaldo Bastos) e Mistérios (Joyce e Maurício Maestro), Meu Menino (Danilo Caymmi e Ana Terra) e Toshiro (de Novelli). A essa altura, o som por ele inspirado em Minas tinha dado outros frutos, como o Uakti, banda de experimentalismo radical, que inventou seus próprios instrumentos. 

A partir da década de 80, em parte como reação à diluição das idéias do Clube da Esquina, Belo Horizonte viu nascer uma fornada de bandas de rock que em nada pareciam ter sido influenciadas por aqueles músicos: o Sepultura (que, com sua original solução para o heavy metal, tornou-se a banda brasileira de rock mais conhecida no exterior), o Skank, Pato Fu e Jota Quest. Em 1996, Márcio Borges, fez o inventário do Clube no livro de memórias Os Sonhos Não Envelhecem – Histórias do Clube da Esquina. 


A Relação entre o Clube da Esquina e o Rock Progressivo

Podemos dizer que o Clube de Esquina tem contato com o Rock Progressivo. Alguns de seus representantes, como Lô Borges, Márcio Borges, Beto Guedes e até Milton Nascimento são fãs do rock mais elaborado. Tanto o Clube da Esquina quanto o Rock Progressivo são movimentos revolucionários e inovadores.
Beto Guedes curte e conhece muito bem o Progressivo. Seu filho Gabriel tinha uma banda especializada em Genesis e Yes.
Quanto a Milton Nascimento, já fez shows ao lado de Jon Anderson, a voz do Yes. Seu disco Angelus contou com a participação de Jon Anderson, Peter Gabriel (ex-vocalista do Genesis), Pat Metheny, Túlio Mourão (outro mineiro, além de ex-integrante dos Mutantes) e Herbie Hancock. Já Milton Nascimento participou do disco Deseo, de Jon Anderson. Milton também tocou com Wayne Shorter, que foi integrante da banda de jazz-rock de Miles Davis, nos anos 70. Usa elementos world em alguns de seus discos, como foi o caso de Txai. De vez em quando recebe um Grammy na categoria World Music. Caetano diz que Milton canta alto de uma maneira que passa a impressão de querer transpor as montanhas das Minas Gerais.
O Som Imaginário, antiga banda de Wagner Tiso (outro integrante do Clube da Esquina) e que, em seus primeiros anos, acompanhou Milton Nascimento, misturava psicodelia, MPB, Clube da Esquina, Rock Progressivo e jazz. Também passaram pelo conjunto Nivaldo Ornelas, Toninho Horta, Tavito, Naná Vasconcelos, Danilo Caymmi, Robertinho Silva, Laudir de Oliveira, Frederiko, Zé Rodrix (este, após deixar o Som Imaginário, uniu-se a Sá e Guarabira, criando, com eles, o histórico trio de rock rural), entre outros. A precisão instrumental era a maior força do grupo, que se mostrou inventivo desde o início, já incomodando ouvidos comportados. A música era impecável e os arranjos, criativos. Discos do Som Imaginário: Som Imaginário, Som Imaginário (chamado por alguns também de A Nova Estrela) e A Matança do Porco.

Flávio Venturini, outro mineiro e integrante do Clube da Esquina, participou d'O Terço -em sua melhor fase, a dos discos Criaturas da Noite e Casa Encantada-, importante banda progressiva brasileira dos anos 70. Venturini levou para o grupo elementos do movimento mineiro. Após sair d'O Terço, Flávio Venturini fundou, junto com Sérgio Magrão (outro ex-integrante daquele grupo progressivo), o 14 Bis. O 14 Bis mistura em sua música Clube da Esquina, Rock Progressivo e música clássica. Depois, deixou o 14 Bis para seguir carreira solo. Flávio Venturini ajudou nos coros do LP de estréia do Sagrado Coração da Terra. 

O violinista Marcus Viana, também mineiro, ex-Saecula Saeculorum (nos anos 70) e atualmente líder do Sagrado Coração da Terra, ambas bandas de Rock Progressivo, esteve presente em trabalhos de estúdio e/ou como componente de bandas de gente como Milton Nascimento ("Caçador de Mim", "Anima"), Flávio Venturini ("Andarilho"), Fernando Brant ("25 Anos de Travessia"), Beto Guedes e Lô Borges, só para citar os mineiros do Clube. Pode-se dizer que sua antiga banda Saecula Saeculorum fazia uma espécie de versão progressiva do Clube da Esquina, ingrediente este que também está presente na música do Sagrado Coração da Terra. Segundo Marcelo Dolabela, em seu livro ABZ do Rock Brasileiro, o Saecula se apresentou na primeira versão do festival Camping Pop. Marcus Viana participou do álbum Nascente (faixa Jardim das Delícias) de Flávio Venturini.

O Tellah, banda progressiva de Brasília, foi influenciado pelo Clube da Esquina e isso está comprovado em seu único disco, Continente Perdido.
Há ainda o grupo mineiro Uakti, que utiliza instrumentos de fabricação própria, realiza um trabalho bastante alternativo e é rotulado como New Age/World Music. O Uakti ganhou a admiração do compositor minimalista americano Philip Glass, que inclusive já compôs exclusivamente para o grupo. Nota: o Uakti grava por um selo que é dirigido por Glass.

Texto escrito e organizado por Ériston Silva Melo
Fontes:

artigo "Saudade dos Anos 70", de autoria de Paulo Pestana, publicado no Correio Braziliense em 1997, sobre o lançamento da série Portfólio, pela EMI
Pop Rock, A História, vol.4, da MTV, publicado pela revista Caras
entrevista com o grupo progressivo mineiro Cálix, na 10ª edição de Metamúsica, segundo semestre do ano 2000
artigo "Milton Solta a Voz e Canta a Vida", revista Manchete, nº2356, 31 de maio de 1997 
artigo "Milton Nascimento na Estrada Blue", revista do CD Compact Disc, ano 1, nº10, janeiro de 1992 
matéria especial "Sagrado Coração da Terra", sobre o Sagrado, Marcus Viana e o Saeculae Saeculorum, em Metamúsica nº4 
Metamúsica nº6, pág.44 
O Movimento Progressivo Mineiro, de autoria de Cláudio Fonzi


   

   

Site de busca!